A tradução do título por si só já é um exercício de simbolismo. No original o filme chama-se apenas “Antonia”. Ao atribuir excentricidade àquela família se faz um pré-julgamento sem considerar a cultura na qual está inserida a história. Particularmente, não considero a família de Antonia excêntrica, quando devidamente contextualizada.
No filme em si, Antonia volta para casa, após vinte anos de afastamento, para estar presente ao derradeiro dia de sua mãe. Traz consigo sua filha e assistem a morte de uma forma, que para outros, pode parecer extremamente distante e sem emoção. Tanto que Antonia e a filha ficam em pé sem sequer chegar perto da mulher-mãe-avó que deita e morre. Seria esse um quadro de total desprezo pela emoção? Ou seria da completa aceitação do ciclo inevitável da vida? Da certeza de que as pessoas não morrem, mas estão sempre presentes, seja na memória de seus parentes, seja nas ações que se refletem na sociedade. O filme retrata isso quando Antonia – ela agora – se prepara para a morte. Num almoço, ela dança sua última dança e vê os que já se foram. Os mortos continuam vivos numa metáfora que remete à realidade. Metáfora essa que se estende ainda mais quando a bisneta também vê os mortos. Sinal de que a cultura daquela sociedade foi internalizada pela criança. O filme mostra muito mais. São cinco gerações de mulheres que, com suas características próprias, vão conduzindo um núcleo familiar cada vez maior. A generosidade de Antonia permite e agrega o vizinho viúvo, que quer casar com ela, e seus cinco filhos, que ajudam nas coisas da lida pela sobrevivência, mas participam dos momentos alegres e tristes. São ainda retratadas várias situações que ocorrem em qualquer sociedade, mas neste microssistema ocorrem ao mesmo tempo. O padre pedófilo, o homem que estupra a própria irmã, o “deficiente mental”, a mulher que uiva para a Lua, o estudioso de Schopenhauer e Nietzsche.
O sexo é um dos fios condutores de todas as relações existentes naquela sociedade. O incesto é tabu e foi punido inclusive com a morte do estuprador da irmã pelo outro irmão dos dois. Todos sabem que necessitam de relações sexuais e isso é aceito de uma forma muito natural e respeitosa. Não há vulgaridade, mas prazer nos encontros. Isso se dá com Antonia, que cede ao assédio contido do vizinho viúvo. Ela é liberta e não quer um casamento em que tenha de compartilhar do mesmo teto, mas compartilhar do sexo, das refeições e do convívio. O sexo existe também entre o casal formado pela mulher que era estuprada pelo irmão e o homem deficiente mental. Ambos já haviam sido acolhidos por Antonia. A filha de Antonia decide ter um filho, mas não quer um marido, não quer um homem ao seu lado. Isso não causa estranheza e Antonia ajuda nesse processo de escolha de um “reprodutor”, irmão de outra personagem que tem vários filhos e gosta da vida dos prazeres sexuais. Ela é acolhida por Antonia e acaba por se casar com o padre que larga a batina, pois precisa viver uma vida que inclua o sexo. O outro padre também é desmascarado e pego em flagrante com uma jovem no confessionário. Esse mesmo padre tentava impor um discurso moralizador em seu sermão, justamente sobre o ato da filha de Antonia querer ser mãe solteira. A hipocrisia da Igreja.
O componente sexo está presente na metáfora da mulher que uiva para a Lua e anuncia sua histeria por falta de sexo. No andar de baixo dessa mulher mora um “protestante”, que suporta esses uivos, mas é o único presente quando a mulher morre, ambos privados de uma vida sexual. Desse contexto todo explanado no filme, pode-se tentar entender o exercício da tolerância tão comum na Holanda, que talvez seja um dos países mais tolerantes quanto a todas as diferenças. Parece que três componentes são fundamentais nesse processo de desenvolvimento da tolerância: (1) a vida sexual ativa e livre, (2) o respeito ao ser humano como indivíduo e (3) o rechaçamento a tudo que vier a quebrar os dois primeiros.
Não podemos analisar a família apartada da cultura na qual está inserida e esse é o pensamento de Lèvi-Strauss. Para ele, a família consanguínea, precisa se desfazer para que a sociedade exista, ao mesmo tempo em que a sociedade é condição da existência da família. São grupos de pessoas (famílias) dispostos a reconhecer seus limites e a se abrir ao outro através de alianças. Isso é visto no filme, onde o núcleo de Antonia se expande agregando pessoas diferentes e que vão ampliando a família. Essa concepção de Lèvi-Strauss se diferencia da perspectiva funcionalista que vê na família apenas uma unidade biológica com pai, mãe e filhos, na visão de Malinowski e, também, na vertente estrutural de Radcliffe-Brown. Para Lèvi-Strauss a família funda o social, sim, mas não nos termos funcionais da biologia humana, mas, ao contrário, porque na existência da família, como aliança, está a possibilidade do ser humano se fazer social, comunicando-se, rompendo e ampliando o isolamento a que nos condena a consanguinidade.
Sergio Manzione
domingo, 5 de dezembro de 2010
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1 comentários:
Excelente artigo! Obrigado!
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