domingo, 5 de dezembro de 2010

Nego Bom e Bel

Aquele ruído era conhecido por todos. Era Nego Bom descendo a ladeira do Barbalho com sua moto. Rapaz de seus vinte e poucos anos, alto, com uma barriga tanquinho adquirida na adolescência carregando botijão de gás nas costas para fazer um troco. Nego Bom era conhecido da Ponta de Humaitá até Itapuã como fera na moto. Nome de batismo: Bonifácio Charles da Silva. Ele não fazia o tipo pegueteiro, mas tava sempre na área e se derrubar... já sabe.

Nego Bom não largava sua arabaca toda armengada. Todo mundo sabia que ele perderia um amigo, uma mulher ou até mesmo a mãe para salvar aquela moto. Aliás, ela foi comprada com muito trabalho na própria oficina onde ele trabalhava como mecânico de motos.

Nego Bom estava ficando com Bel, uma galeguinha bonita, tipo mulher-gata mesmo. A relação dos dois era meio vai-não-vai e sem saber para onde vai. Quando Bel apertava a mente de Nego Bom para ele se definir, o sacrista tirava de tempo e partia para um interminável jogo de sedução. Esse rolo vinha se arrastando há tempos e Bel já estava meio agoniada. Os dois se curtiam, mas nada oficial.

Nego Bom era chegado numa sinuquinha onde ia derrubar umas bolinhas, bebendo uma breja ou água-dura com os colegas. Bebendo, porque “baiano não toma”, como ele dizia. Isso acontecia toda semana num moquifo perto do Mercado Modelo. O ambiente era típico do barzinho de bilhar: uma mesa de “sinúquer” tipo mata-mata com o pano gasto e com um rasgo na ponta, os tacos tortos, a TV ligada no Baêa, um ou ouro maluco passando um “tóchico”, os dois bêbados de sempre e algumas piriguetes na área. Sempre rolava uma apostinha básica entre os colegas. Quem perdia pagava a breja e coisas tipo isso, até porque a grana era regrada. Além do mais, Nego Bom era bom no jogo e sempre tirava uma onda da galera. Lá pelas tantas, um colega que havia perdido várias partidas, estava a fim de aliviar o prejú. Lançou o desafio para Nego Bom:

- Aê, mermão! ‘Bora um tudo ou nada?
- Colé de mermo?
- Assim ó: se eu ganhá fico com tudo. Se tu ganhá, pago em dobro.
- Cole, véi! Que onda... Vou nessa não. Ainda se tu botasse a gata na parada...
- Demorô, véi. Essa piri já tá gasta.

Como era de se esperar, Nego Bom deu de lavada no colega. Mas tudo de boa. Não tinha essa de cara feia e pau viola. Todo mundo fica ali ouvindo o pagode junto misturado com a TV, sentado, bebendo uma e, agora, Nego Bom com a piri no colo, quase rolando um lance básico. Mas mulher é brincadeira? Umazinha que andava de butuca em Nego Bom, mandou um torpedo para Bel botando a maior pilha:

“Teu Nego Bom tá todo tirado co a vagaba, tirando onda e as porra no bazinho do Bira”

Não deu outra: Bel desceu para a sinuca, chegou na cocó e viu a cena toda. Mas segurou a onda. Ficou na dela. Nego Bom se ligou, tirou a piri do colo e foi falar com Bel:

- E aê, minha linda?
- Me deixe, seu descarado.
- Oxi?! Descarado o que, rapaz?
- Porra, chamei você pra ir ali comigo e você não quis para ficar na descaração com essa aí, né?
-Ói, não rolou nada com a piri.
- Colé mermo Nego Bom e besta, quer me comediar é? Eu vi a parada.
- Viu o que rapaz? Viu o quê? Ai, ai... Viu o quê? Os colega zuando? Ai, ai...
- Ói, me deixe vu! Se saia!

A conversa acabou aí, porque Bel foi embora como se diz: “virada na porra”. Mas ela tava mais decepcionada do que brava. No fundo ela gostava mesmo de Nego Bom. Ela estava a fim de ficar com ele, de namorar sério. Os dois sabiam disso, mas ninguém chegava com esse papo. Faltava iniciativa. Faltava coragem... Esse rolo entre Bel e Nego Bom não desempatava. Ele passava fazendo zuada com a moto e ela virava a cara. Ele ria, tipo “tô de boa”.

Bel estava a fim de se valorizar mais, de despertar algo mais em Nego Bom para ver se ele se decidia. Ela ainda não tinha digerido a história da piriguete na sinuca. Passados alguns dias, Bel soube que ia ter um pega na Avenida Contorno. Soube, ainda, que Nego Bom ia lá se amostrar tirando onda com sua moto e sua habilidade em pilotar. Bel logo se interessou em participar desse racha, mas dando uma lição em Nego Bom só para ele baixar o topete. Não deu outra, Bel foi falar com Carlinhos Buiú, que sempre foi a fim dela, para propor um desafio:

- Buiú, quero escaldar Nego Bom.
- Oxi! Qual foi? Você da mole pro cara que eu sei.
- Oxi! Feche a cara! Eu sou piriguete é? Sim, e aí? Vai ou não vai?
- Adianta o lado.
-Niuma. No pega de sábado oito horas, você vai correr também e ganhar do cara.
- Rapaz, o cara é bom. Ele apavora. Posso até ir, mas ganho o quê?
- Tu parece nó cego, véi. Tu vai ganhá dele. Vai virar o cara.
- Até parece... Ói o esparro... Se ligue: se eu ganhá a gente fica. Já é ou já era?
- Já é.
- Ta rebocado! Eu vou ganhar véi.

Buiú mandou recado para Nego Bom, que não desconfiou de nada. Os dois tiveram uma semana para preparar suas motos, afinal aquilo seria um grande evento. Chegado o sábado à noite, alta madrugada, depois de vários pegas entre os malucos, a galera do mal estava esperando o grande show. Era Nego Bom contra Buiú. A pista ia do Solar do Unhão até o Elevador, uns trezentos metros de muito perigo. Coisa pra macho. Motores roncando fazendo muita zuada, área liberada, as duas motos perfiladas e alguém deu o sinal da partida. Os dois motoqueiros abriram o gás, sem medo de nada, arrepiando mesmo. Como era de se esperar, Nego Bom levou a melhor. Levou o pega e continuou com a fama de “bolo doido”. Bel se picou injuriada com uma ponta de raiva e de orgulho tudo misturado. Ela não contou conversa e foi tirar satisfação com Carlinhos Buiú:

- Porra, véi, você é fraco mermo né? Deu caruara, foi?!
- Qual foi? Tá maluca é?
- Num to cumeno seu reggae.
- Se saia,vá! Se ligue vu?!
- Bufa-fria!

Carlinhos Buiú ficou injuriado com essa conversa.

No domingo, para comemorar a zorra, rolou um reggae com banda e cerveja. As colegas chamaram Bel que disse que ia, mas a pulso. Ela sabia que Nego Bom ia estar lá e queria ver a cara do miserável. Nego Bom, ligado na parada, fez questão de ir ao pagodão para tirar onda de herói. Muita música, muita cerveja, muita gente, azaração e pegação rolando. Tudo certo, menos para Bel que só ficava ligada no amado e com raiva ao mesmo tempo. Daqui a pouco, Bel foi pegar uma cerveja e deu de cara com Nego Bom:

- E aê gata. Quis me comediar... Tá veno?! Se campou...
- Ta falando de quê, metidão?
- Agora... Você ficou de treta com Buiú, que eu tô sabeno.
- Você se acha mesmo, né, véi? O reizinho da moto.
- Cole véi?! Você foi na trairagem pra armar pra cima de mim. Precisava, véi? Precisava?
- Baixe a voz que eu to conversano.
- Que conversano? Que conversano? Tu quer me tirar, véi. Maior traíra.
- Se oriente, maluco. Você já era para mim. A fila andou otário.

No meio dessa discussão, Nego Bom segurava Bel pelo braço para ela não ir embora, enquanto a conversa ficava cada vez mais agressiva. Bel continuava dizendo:

- Seu negócio é essa piriguete aê, que você ganhou na porra da sinuca. Tu gosta da nigrinhagem.
- Se liga, nem encostei nela.
- Ainda por cima é cara-de-pau véi.
- E você? E você? Se acha a mulher muito bonita, né? Canhão desse... Sai daí tribufu.
- Me respeite vagabundo. Tem um bucado de gente que não acha. Faz fila vu.

Já tava arrodeado de gente vendo a baixaria, quando Buiú saiu do nada e pulou na frente de Nego Bom com uma faca na mão. A roda abriu. Era briga de capoeira. A zuada parou na hora. Não se ouviu mais nada. E ali, no meio da festa, se viu meia-lua de costas, arpão, martelo, escorão, queixada, rabo-de-arraia. Mas foi numa guela que Buiú vacilou e perdeu a faca. Como o jogo era a vida, de cabeça quente, Nego Bom meteu-la porra em Buiú, que se estabacou no chão dando o ultimo grito de dor. Nego Bom se estatelou do outro lado, cansado, com adrenalina saindo pelos poros e a respiração ofegante. A galera vazou geral. Bel, diante daquela cena, num misto de ódio e desgosto, pegou a faca de Buiú e enterrou na barriga de Nego Bom. Foram cinquenta e duas facadas acompanhadas de muito choro. E como disse a música: “zum-zum-zum, zum-zum-zum, capoeira mata um”. Um final trágico de uma história que nem tinha começado direito.



Sergio Manzione


Esta adaptação feita por Sergio Manzione foi baseada no episódio “Negro Bonifácio” da série “Cena Aberta”, adaptação do conto de João Simões Lopes Neto, roteiro de Jorge Furtado e Guel Arraes, versão 13/08/2003, produção da Casa do Cinema de Porto Alegre para a TV Globo e está disponível em: http://www.casacinepoa.com.br/os-filmes/roteiros/negro-bonif%C3%A1cio

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